Tabuleiro Milionário conta a história de uma das mais famosas famílias da América Latina, que após anos convivendo diariamente com o massante paparazzo dos grandes centros, decidem investir em novos projetos em Ilha Paraíso, uma cidade litorânea que possui pouco mais de cinco mil habitantes. Esta nova aventura promete novas experiências para Velna, Mônica, Michelle, Valentina e Maitê que conhecerão novas pessoas e se surpreenderão com as surpresas que essa cidade mostrará. Drama, traições, surpresas e humor marcam essa série.
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1° Temporada, Capítulo 02: Sonhos destruídos.
Os primeiros dias em Ilha Paraíso passaram rapidamente, principalmente porque boa parte do tempo a família ficou fazendo a mudança para a nova casa, com exceção claro de Velna e Michelle, a filha louca depois do primeiro dia nunca mais foi vista, algo não muito raro, visto que ela desaparecia por semanas quando moravam na Cidade Grande, e na maioria das vezes os paparazzis achavam ela antes de suas próprias irmãs, muitas vezes embriagada em algum ponto público. Velna pediu para que providenciassem um quarto para ela no resort e lá ficou, administrando os novos negócios dia e noite.
A nova casa da família Florem ficava em uma localização privilegiada da cidade, exatamente no ponto mais alto do monte leste e fazendo faixa litorânea com uma praia exuberante e uma vista magnífica. Sua construção é moderna porém o design é em sua maioria voltado aos tempos antigos e com detalhes mais rústicos, tudo ao gosto de Velna Florem. São sete quartos enormes, além de 2 cozinhas, uma sala de televisão, 2 salas de estas, 10 banheiros, 2 escritórios e uma academia na parte externa. Uma verdadeira mansão, e para cuidar disto tudo, ninguém mais que a Mordomo Araci. Funcionária da família há 10 anos, deixou sua família e veio junto para Ilha Paraíso.
- Dona Mônica, desculpe incomodar mas...
- Meu Deus! Que susto Araci, desculpe-me, estava aqui concentrada em uns documentos da editora, o que deseja?
- Desculpe-me, é que acabei de receber um comunicado de Velna Florem e ela me dizia para que repassasse á todas o mais rápido possível. - Araci parecia estar diferente, Mônica nunca havia lhe visto daquela forma, enquanto falava sua voz saía trêmula como se estivesse nervosa com algo.
- Pois então... diga.
- Ela informou que hoje á noite, ela tem algo para dizer á todas as suas filhas e que ninguém pode faltar ao jantar. Ninguém. - Mônica percebeu uma entonação maior na palavra "ninguém", parecia que algo estava realmente errado com Araci, mas antes de perguntas seus pensamentos foram interrompidos, ela havia se aproximado e sentado ao lado de Mônica na cama. - Acabei de escutar na rádio local... Olha não estou afirmando nada, porém você sabe que sua irmã Mônica está desaparecida á alguns dias e...
- Araci, não se preocupe com isso. Eu notei que está meio tensa, precisa relaxar, ela já fez isso várias vezes.
- Porém, eu estou sentindo algo ruim mesmo. Pois a notícia que escutei não era nada boa. - Ela abaixou a cabeça como se fosse chorar. - O locutor dizia que hoje pela manhã, na praia Sul foi encontrado um corpo... e era de uma mulher, e ela... - Araci olhou nos olhos de Mônica antes de finalizar a notícia . - Está morta.
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Velna não era do tipo de mãe que marcava jantares para apenas ter as filhas por perto e a família reunida. Se ela marcou este jantar é para comunicá-las de alguma coisa importante e Maitê sabia disso, ela conseguia perceber na forma como ela estava naquele dia, parecia focada e dizia poucas palavras para seus funcionários. Desde que chegaram em Ilha Paraíso, Maitê tem estado na grande maioria do tempo arrumando suas coisas na nova casa, porém como braço direito de sua mãe, ela acordou todos os dias cedo e veio junto administrar o resort, algo que ela amava naturalmente, pois sempre quis estudar estética, porém acabou formando-se em contabilidade.
- E então mãe, você poderia me dizer qual assunto vai ser tratado hoje a noite?. - Maitê estava a poucos metros de Velna, as duas estavam perto da beira do penhasco, na área dos jacuzzis, pois era o lugar mais silencioso de todo o resort, que estava fervendo de pessoas correndo daqui para ali.
- Maitê, preciso que você vá até o setor de limpeza e comunique uma reunião hoje á tarde para mim e depois quero que vá até a nossa casa e pegue um envelope que deixei em cima da minha cabeceira de cama.
- Mas, ok... eu farei isso. E quanto á reunião hoje á noite?
- Maitê, será hoje a noite. Não há porquê eu dizer o motivo se ela está marcada para acontecer de noite! - Velna virou as costas e seguiu em direção á central, Maitê correu atrás dela e parou na sua frente. - Qual é o seu problema?
- Mãe, eu tenho algo para lhe contar. O meu namorado, ele vai estar hoje ai, estou conversando com ele por mensagens, está á alguns quilômetros daqui, chegará pela noite. Eu poderia não estar presente no jantar?
Velna ficou olhando para ela, mas logo continuou a andar, desviando de sua filha e seguindo por onde ia. Maitê sabia que aquilo significava um não. Ela estava animada com a ideia de ser pedida em casamento por Leandro, um empresário que conheceu á poucos meses, porém ela não tinha a certeza se era por isso que ele estava vindo.
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- E então, será que não tinha como a senhora ver outro horário para a aula de violão?
- Infelizmente não posso, os horários disponíveis são esses. Os professores não moram aqui, eles veem especialmente para dar essas aulas, então não posso abrir exceções por mais que eu queira senhorita Florem, é um imenso prazer receber você aqui.
- Obrigada - Valentina odiava ser paparicada desta forma, ela já começava a sentir as bochechas vermelhas de vergonha, haviam outras pessoas no recinto, um pequeno quadrado com uma pintura escura parecida com mostarda, o cheiro de poeira era confundido com o de lavanda, provavelmente acionada por aqueles sprays . Ele já estava até sentindo dor de cabeça.
- Bom, podemos também fazer um desconto para você...
- Não, eu irei pagar tudo. Inclusive - Valentina começou a remexer as coisas em sua bolsa, estava tudo uma bagunça, até que ela encontrou a carteira. - Aqui está a primeira mensalidade.
A moça pegou o dinheiro com cuidado, como se estivesse pegou um fio de vidro. Seus cabelos estavam presos em um coque improvisado e bagunçado, ela parecia ter saído as pressas de casa para vir trabalhar. O balcão também estava todo bagunçado, alguns papéis ocupavam a maior parte, além de várias canetas, lápis e marca textos. Nas extremidades de cada lado tinham vários folhetos de parques, resorts e restaurantes, ela começou a analisar todos e percebeu que a maioria era ali em Ilha Paraíso, ela nunca pensava que a cidade possuía todas aquelas coisas, talvez fosse maior do que pensava.
- Ah, olha só este aqui. - A moça pegou um folheto pequeno azul que Valentina não havia notado antes, ele era simples, sem nenhuma figura e era feito de papel normal. - Chama-se grupo de Corredores contra a Depressão, já que estava dizendo que o horário ficava ruim para você vir de sua casa até aqui, eu aconselho se inscrever.
- Mas o que é isso realmente? - Valentina leu o que estava escrito no bilhete, porém não havia nada de mais, apenas o nome do grupo e o local de concentração.
- Isto é um Grupo que corre as ruas de Ilha Paraíso todos os dias, 3 vezes ao dia. Uma sessão de manhã, outra a tarde e outra a noite. Inscreva-se na de tarde, eles passam por aqui ai você já fica e faz sua aula. O que acha? - Ela abriu um imenso sorriso, parecia conhecer muito do que eles faziam.
- Você participa do grupo? - Valentina não controlou a curiosidade, na verdade ela estava achando aquilo tudo muito estranho, um grupo de pessoas que corre contra a depressão?
- Sim, porém no turno matutino, mas eu sei que há vagas no vespertino, eles se concentram no coqueiro seco ás 14:20, saem 14:30 e chegam aqui em mais ou menos uns 15 minutos, dá tempo para você fazer sua aula tranquilamente. - Valentina achou uma ideia interessante, mas havia um problema: Ela não sabia correr e nem tinha preparo físico para correr por quinze minutos, sem falar do tempo que andaria até chegar no coqueiro seco, que nada mais é que uma esquina onde tem um coqueiro seco, obviamente.
- Ok, eu irei ver. Bom, então está certo, amanhã eu venho para a minha primeira aula, mas á algo mais que eu queria perguntar para você...
- Pode perguntar tudo o que quiser - A moça era extremamente sorridente e escandalosa, Valentina começava a sentir raiva da forma como ela se comportava, parecia estar sendo artificial apenas para agradá-la.
- Bom, eu faço aula de violão á uns anos, e então gostaria de saber se eu poderia pular as aulas básicas e ir direto para as de nível médio?...
- MAS É CLARO!! - Mais uma vez ela interrompeu Valentina dando um berro, aqueles que não estavam prestando atenção na conversa, agora viravam-se para ver o que acontecia e alguns olhavam discretamente acima da revista nos bancos de espera. Valentina odiava aquilo. - Vou só marcar aqui seu nome - A moça virou-se as costas em procura de algum caderno, começou a abrir todas as gavetas e Valentina viu ali uma oportunidade para sair daquele lugar, ela já havia feito o que precisava e agora algumas crianças começavam a perguntar aos seus pais se ela era mesmo quem eles achavam que era.
Com apenas dois passos longos ela abriu a porta e saiu, o ar quente tomou conta de seu corpo instantaneamente e ele sentiu uma leve tontura, mas logo se recompôs e seguiu o caminho para casa. Na ida ela tinha arrumado carona
com Mônica e Araci, que estavam indo á um show de museu, algo estranho, pois Valentina conhecia muito bem sua irmã e sabia que ela odiava museus. No caminho, ela começou a pensar no pôster que viu na recepção, a mulher ficou na frente boa parte do tempo, mas quando virou as costas e se abaixou ela pode ver: era da dupla Yumi e Yon, uma dupla de Pop Indie que ficou famosa no Brasil e na ásia, mas que morreu após um trágico acidente de avião. Aquela atendente deveria ser fã delas, ou algo do tipo.
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O sonho de Valentina sempre foi o de ser uma cantora famosa e reconhecida, porém ela nunca conseguiu progredir com sua vontade, pois sempre esteve destinada á outras coisas, destinada em ser apenas uma integrante da família Florem, uma garotinha, a mais nova de todas. Apenas isto.
Mais ou menos á dois anos atrás, ela foi em um programa de entrevistas, e decidiu que seria naquele dia que apresentaria o seu dom para o mundo inteiro, todavia antes mesmo de entrar no palco foi advertida pela produção que não seria necessário, que o foco da entrevista era em saber na nova coleção de moda-verão que ela estaria estrelando.
E foi assim em várias situações, por mais que fosse famosa, ela não era conhecida por aquilo que desejava que fosse, ela queria subir em palcos, cantar e dançar, agitar multidões, tocar nos maiores festivais do mundo. Este era o seu sonho.
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A dor percorria-lhe todo o seu crânio, eram como se fossem batidas de martelo dentro de sua cabeça. Por mais que esteja ainda absorvida por seus sonhos turbulentos, Michelle consegue perceber que está com uma terrível ressaca, já havia sentido isto outras várias vezes. Antes de abrir inteiramente os olhos e se envolver naquele ambiente desconhecido, ela tocou em volta de onde estava, era macio e gelado, provavelmente estava em uma cama.
Aos poucos foi abrindo os olhos e dando em conta de que estava em um local desconhecido, era um quarto grande e bem ventilado, os sons foram ficando mais nítidos e ela tomou conta de que uma porta enorme estava aberta, dando visão para a areia da praia e um mar infinito.
Conforme foi levantando-se, ia se lembrando da noite anterior. Em meio á seus pensamentos, a sua dor de cabeça lhe deixava confusa, mas ela tinha certeza agora de onde estava. Era num resort á 20 quilômetros de Ilha Paraíso, veio parar ali depois de conhecer um homem de quem não se lembrava o nome, ela apenas recordava que estava bêbada e de primeiro momento pensou que era um assaltante lhe abordando na praia, porém os dois acabaram envolvendo-se e foram parar ali.
Nem seu nome ela conseguia lembrar, por um momento achou estranho lembrar de apenas algumas coisas, seu rosto por exemplo, ela não possuía nenhuma lembrança. Quando levantou-se da cama a sua dor de cabeça ficou mais forte, porém como sempre faz depois de uma noite turbulenta, ela corre até o local mais próximo e vomita tudo o que lhe vier pela frente. Após lavar sua boca e seu rosto, colocou sua roupa que estava espalhada pelo quarto e procurou alguns vestígios do seu suporto "namorado".
Nenhuma roupa e nenhum bilhete. Nem mesmo em seu celular não possuía nada, nenhuma foto ou mensagem. Decidiu então sair do quarto e procurar a recepção.
Andou por pouco mais de 2 minutos pela calçada que interligava os outros chalés até chegar na recepção. Alguns hóspedes estavam conversando com uns atendentes e umas crianças corriam pelo espaço, Michelle olhou em volta á procura de algum funcionário disponível, até que avistou uma empregada limpando os banheiros.
- Com licença, qual é o nome daqui? - Michelle mal conseguia ficar de olhos abertos, a dor parecia aumentar a cada minuto e o cheiro de produto de limpeza piorava mais ainda as coisas.
- Aqui é o resort Praia Goiabeiras, a senhora está bem?
- Sim, obrigada. - Michelle retirou-se rapidamente dali, aquele cheiro começava a lhe dar náuseas novamente.
Caminhou até o balcão de atendimento:
- Com licença, esta é a chave do quarto 32 eu gostaria de saber algumas informações sobre a... - Sua dor de cabeça lhe dificultava a pensar - minha estadia.
O atendente, um jovem de cabelo enrolado de provavelmente uns 20 anos, olhou-a como se já tivesse visto aquela cena outras milhares de vezes, ele percebeu que estava estava passando mal.
- Senhorita Michelle Florem, você e Guilherme Icheta deram entrada neste resort no plano de uma noite em um dos nossos chalés. No preço de R$350,00.
- Ótimo, ótimo... - Guilherme Icheta?! não, não conhecia este nome. Seja quem for, deu o pé fora dali a tempo de não pagar a conta.
- Seu check-out deve ser feito até ás 12:00, apresente-se aqui mesmo. O preço total juntamente com os alimentos consumidos, fica em R$780,00.
Setecentos e oitenta reais?! Ela não podia acreditar, na sua carteira tinha no máximo cinquenta reais, seja quem for, é um dos piores canalhas que ela já viu. Rapidamente deixou a recepção e encaminhou-se para a área de café da manhã, que já estava vazia por conta do horário. Eram onze horas da manhã e ela teria que arrumar uma forma de sair dali.
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- Eu lhe disse! Você precisa manter a calma Araci, não pode desesperar-se por qualquer coisa. - Faziam alguns minutos que haviam chegado em casa do hospital municipal, o corpo não era de Michelle Florem, aliás, não se parecia nem um pouco com ela. Seja quem for, Mônica precisava tirar aquela imagem horrível da cabeça.
- Desculpe-me, é que todas as pistas apontavam para ela. Pois bem, agora preciso providenciar o almoço de vocês, e também ainda preciso achar Michelle Florem, sua mãe deixou bem claro o que ela quer para hoje a noite.
Araci levantou-se e foi para a cozinha providenciar o almoço para elas. Mônica decidiu subir para seu quarto, ver seus e-mails e saber se alguma editora havia entrado em contato com ela, fazia uma semana que ela enviou seu mais novo livro, um romance fictício.
Nada.
Nenhuma havia comunicado ela, mal sinal, isto nunca antes tinha acontecido.
- Olá...
Era Valentina.
- Oi gatinha, como você está?
- Estou bem... você parece meio...
- Nenhuma editora entrou em contato comigo para conversarmos sobre meu novo livro, parece que não consegui desta vez. Como foi no curso de violão?
- Ótimo. - Valentina ainda estava na porta, parecia querer saber algo a mais. - E então como foi o show no museu?
- Ótimo também.
- Tem certeza? - Se havia algo que sua irmã sabia identificar em Mônica era quando estava mentindo. Valentina sabia muito bem que ela odiava museus.
- Valentina, desculpe-me por mentir, não fomos a nenhum museu, na verdade fui com Araci ver um negócio que ela descobriu, mas agora tudo está resolvido.
- O que...
- Vamos almoçar? - Mônica levanta-se e vai até a porta, dando por encerrar o assunto. Por mais que tudo não tenha passado de um mal entendido, não via necessidade de contar para sua irmã mais nova.
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Michelle teria mais ou menos dois minutos até que o lixeiro voltasse ao caminhão. Durante alguns minutos ela observou o seu trabalho e percebeu este tempo como sendo a sua chance de fuga daquele resort, pois ela não possuía dinheiro e seu celular tinha acabado de esgotar a bateria. Fugir certamente não era a melhor opção, ainda mais roubando um caminhão de lixo, mas era a única alternativa viável, faltavam pouco mais de 10 minutos para o seu tempo de check-out, ela precisava sair dali.
Sem pensar muito mais, acompanhou pela última vez o trajeto do lixeiro. Primeiro ia até os galões de lixo, pegava uma quantia de sacos e retornava á traseira do caminhão e lhes deixava lá. A distância dela e do caminhão era de mais ou menos de oito metros, e de onde estava, o homem não lhe via, e nem lhe notava pois usava um fone nos ouvidos.
Quando ele foi até os lixos mais uma vez ela correu em direção ao caminhão, com pouco esforço contornou ele e entrou na cabine do motorista que estava aberta. Olhou rapidamente pelo retrovisor e viu que o funcionário ainda estava nos lixos, enchendo as mãos de sacos, ela devia agir rápido.
Automaticamente, colocou a mão em baixo do volante a procura das chaves, felizmente elas estavam lá, porém antes de ligar o caminhão olhou pelo retrovisor mais uma vez, porém dessa vez o homem estava retornando á traseira do caminhão. Então, resolveu esperar ele colocar os sacos e retornar novamente ao lixeiro.
Na forma como ele andava parecia estar completamente desligado do que acontecia, no mínimo absorvido pela energia da música que escutava. Com dois movimentos de braço, deixou os sacos na traseira do caminhão e tirou os fones de ouvido.
Michelle atenta ao retrovisor pensou se ele havia notado algo, por um breve momento ele ficou imóvel olhando ao redor. Então retornou as atividades, foi até o lixeiro mais uma vez, ainda sem os fones de ouvido. O seu plano estava indo por água abaixo, agora ele iria escutar o caminhão sendo ligado.
Porém mal teve tempo de pensar, ele estava voltando, mas desta vez sem nenhum saco na mão. Havia acabado todos, ele vinha em direção á cabine...Onde Michelle estava.
Apavorada e em choque, ela sentiu sua espinha arrepiar e um frio lhe correu as pernas. Ele iria ver ela, estava tudo acabado. Antes de dar por vencida, ela olha ao redor, tenta ver se há algum lugar para se esconder, e então percebe que além dos bancos de motorista e copiloto, uma cortina separava um quarto adaptado, uma cama e um frigobar sujo e fedido. Sem remediar, abriu a cortina e entrou, no momento exato que o lixeiro chegou á cabine. Seu plano deu errado, mas ela tinha chances de conseguir uma carona até a cidade.
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Por um momento ele ficou olhando algumas coisas no celular, alguns áudios desagradáveis e mensagens. Através da pequena frecha que Michelle abriu na cortina, ela conseguiu ver o relógio no painel do caminhão, já havia passado do horário do seu check-out, neste momento os funcionários já deviam estar procurando por ela.
"Quando chegar aqui, irei lhe mostrar tudo o que havia prometido ontem, mas você acabou não vindo! Agora terá em dobro... meu cachorrinho."
Michelle torcia desesperadamente sair dali, aquilo era nojento de mais. Pior ainda era o cheiro do homem, por um momento ela ficou ainda mais com medo do que poderia acontecer com ela caso ele a encontrasse ali, do que ele poderia fazer com ela. Uma repulsa lhe percorreu o corpo, até que foi interrompida por outro áudio, mas dessa vez era um homem.
"Bolavida, fique parado ai, estamos chegando! Há uma suspeita de fuga do resort".
Sem que pudesse se controlar uma onda de choque percorreu seu corpo, mas dessa vez ela sentia o pânico fervendo dentro dela. Rapidamente tentou em pensar em coisas boas, em pagar uma fiança já que sua família é milionário em casos de prisão e até mesmo de ninguém pegar ela ali. Sentiu vontade de bater em si própria, aquele plano era estúpido, aliás apenas agora começava a ter noção da realidade.
Seja por quanto tempo ficou dopada de bebidas alcoólicas e drogas, tomou conta de que foi por muito tempo.
Vozes ficaram audíveis da parte traseira do caminhão, eram alguns homens chegando, provavelmente da segurança. Michelle não conseguia ver nada.
- Ah vamos lá, uma fuga. O que estão aprontando dessa vez. - O homem fedido e gordo levantou-se e saiu do caminhão batendo a porta com força. Michelle permitiu-se olhar mais adentro e ter a visão do retrovisor, conseguia ver o lixeiro conversando com outros dois homens, ambos musculosos e grandes. Não era possível ouvir o que diziam, mas conseguiu ver os três sumindo de sua visão e indo para a traseira do caminhão.
O mais estranho daquela situação, era porquê eles estavam ali, Michelle não conseguia pensar outra coisa a não ser uma denúncia anônima. Alguém havia visto ela entrando no caminhão.
Antes que pudesse tomar conclusões mais concretas, o lixeiro retornou até a cabine de motorista. Sentou bufando no banco e torceu a chave na ignição. Pelo visto ela estava salva.
Instantaneamente ela sentiu um alívio. Iria ir embora. Para diabos onde for este caminhão.
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Após mais ou menos 20 minutos percorrendo a estrada, Michelle começava a ficar impaciente. Por mais que não se lembrasse do caminho quando veio com seu "namorado misterioso", ela estava com um pressentimento ruim. O cheiro dentro daquela cabine a cada minuto tornava-se mais insuportável, além do homem havia o frigobar ao seu lado, parecia que continha alguém morto lá dentro.
- E então, fugir do resort foi a melhor alternativa que você arrumou para se encontrar comigo?
Michelle olhou para trás, havia imaginado coisas com certeza. Olhou novamente pela brecha e viu o homem lá imóvel e dirigindo, ela devia estar imaginando coisas.
Mais alguns minutos se passam e ela fica pensando no que tinha acabado de ouvir, ou no que pensava que tinha ouvido. Seu corpo começava a demonstrar os primeiros sinais da falta de alimentação, uma tontura misturava-se com a sua dor de cabeça e ela sentia-se zonza, porém ela sentiu o caminhão parar. O motor já não funcionava mais.
Mais uma vez abriu a frecha na cortina novamente, mas dessa vez ela se abriu mais do que devia. Confusa olhou para cima no momento em que sentiu sua garganta ser pressiona por uma mão grande e oleosa. O lixeiro sabia que ela estava ali o tempo todo.
- Tudo bom princesa! Vamos passear?